2.15.2011

E aqui eu copio e colo mesmo.

"You see things; and you say, 'Why?' But I dream things that never were; and I say, "Why not?" (George Bernard Shaw, "Back to Methuselah" (1921), part 1, act 1)


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2.08.2011

E o amor?

O amor tudo fode.

True, true.


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1.25.2011

Sobre demolições, morte e vida

Voltei aos escombros do Hospital mesmo estando exausta, e suada, e com aquela camada de pó me cobrindo os pés e as pernas e com o suor me engordurando as faces e o calor consumindo minha sanidade. Voltei porque achava que a as coisas, muito mais do que as pessoas, mereciam minha consideração. Porque as coisas me ajudavam a saber quem sou e ali, em meio àquele monte de pedras e concretos armados, e concretos, e armações, e cerâmicas amareladas e pastilhas foscas brancas eu me acessava melhor do que nunca.

O calor estava desumano, africano, algo que só quem frequentou o Fundão pode saber. Sentar na grama daquele lugar é de uma entrega que só o desapego pode explicar. Tive vontade de gritar: eu fui aprovada no vestibular 99, fui a centésima e poucas colocada, sou um pouco dona disso aqui.

E os alarmes que tocavam de 5 em 5 minutos davam um ar de terceira chamada da escola, "uma hora isso acaba". E a hora chegando e eu ali pensando que acordar às 4 da manhã num domingo, tendo se privado de uma noite no Rio de Janeiro, tudo isso dava um ar engrandecedor ao evento. E a escolha do melhor ângulo com a desculpa de estar ajudando o cameraman a fazer seu filme impecável, tudo isso disfarçava o nervosismo de ver algo que significava bastante para você ruir.

Iam demolir a perna seca do Hospital Universitário do Fundão e eu ia assistir pela primeira vez uma vontade gigantesta ser destruída. Inevitável lembrar que "a arquitetura moderna morreu em St. Louis, Missouri, em 15 de julho de 1972, às 15h32min (aproximadamente), quando o infame conjunto habitacional Pruitt-Igoe, ou melhor, grande parte dos seus blocos, levou, por dinamite, o golpe de misericórdia".

6:54 olhei para o relógio. Faltava um minuto para o último alarme.

O último alarme durou uma eternidade. Durou 2 horas. Durou 1 dia inteiro, anos. O coração batia. O cameraman me olhou arregalado e pegou minha mão. Naquele momento não era mais um profissional, era outro ser humano espantado diante da grandiosidade da vida e da morte. Naquele momento o mundo esteve em suspenso. E depois as explosões. Não sabia se tampava os ouvidos ou se me regozijava a cada rompante ensurdecedor, se guardava meus tímpanos para a velhice que caminha a passos largos e impiedosos ou se entregava minha audição de vez àquele arroubo de vida, e de morte que me invadia.

Então uma alteração na geometria do edifício começou a desenhar aquilo que só vi antes pela televisão e que parecia anunciar o fim do mundo: um volume de no mínimo 5 mil metros cúbicos vir ao chão para se tornar não mais do que a areia da praia, assumir sua condição horizontal. Cada centrímetro cúbico daquele edifício veio ao chão como se ao chão pertencesse.

Depois a fumaça sólida, no formato das fofas nuvens brancas que vemos naqueles céus bem azuis, mas que crescia e que ameaçava nos engolir, sufocar, contaminar, matar, mas que não foi mais longe do que o primeiro plano de árvores e serviu apenas para forrar o chão de pó e desenhar as pegadas dos que passaram ali pela primeira vez, e para tingir as copas das árvores de um prateado cor de tédio.

O susto passou, assim como o barulho e o deslumbre. Logo depois a multidão caminhou para o sopé dos escombros. Pareciam exércitos de zumbis em transe, saudando o deus da destruição, alguns profanando o santuário - saqueando relíquias, levando paredes, vigas, pisos, pedras, cerâmicas - como se estivessem guardando pedaços valiosos do Império Romano.

Assim a festa acabou. Os curiosos partiam saciados e, acima da poeira, pôde ir se revelando um domingo. Nós partimos também. Descarregamos o cartão da câmera e voltamos para filmar os escombros. Éramos nós, muito concreto e os urubus. O ar estava parado, havia restos de cartas e prontuários médicos pelo chão e no alto das árvores. O vendedor de bebidas carregava seu isopor para longe dali. Foi como olhar um cadáver, inerte. Inalávamos poeira e morte num domingo ensolarado.

Foi por isso que quando saí dali, mesmo exausta, fui para a casa de uma amiga na Tijuca. Vesti o biquine e desci para a piscina do prédio, onde crianças competiam pelo salto que mais água espirrasse. Riam e gritavam estridentemente. E assim, a despeito de tanta morte, pude alimentar novamente meus sentidos de vida.


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1.12.2011

portunhol

Hormigón armado, ele diz.
Ela olha e vê um prédio, como qualquer outro.
Ele beija sua nuca branca e diz que "ama las brasilerias".
Ela sorri sem graça e murmura: concreto armado.


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12.23.2010

Primavera, verão, outono, inverno... e primavera

Eu sou uma pessoa má, eu menti para mim. Disse que era forte e que aguentava, mas não aguento.

E agora, o que posso fazer? Nada, como sempre.

Tudo o de sempre.


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12.15.2010

De como fazer nevar

I tried the magic boiling water trick late last night: boil a kettle, pour the water into a cup, walk outside at minus 20F and throw the boiling water into the air, where it turns instantly to powdery snowy dust. I did it. It worked.

(Do blog do Neil Gaiman, http://journal.neilgaiman.com/2010/12/cats-in-sauna-and-boiling-water-tricks.html)


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12.09.2010

Hot Haikai

Suor, saliva
Quarenta graus à sombra
Verão no Rio


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12.01.2010

Sobre o momento

Prepotência dizer que vivo atualmente um bloqueio criativo? Fico aqui tentando olhar para dentro e entender o porquê dessa sensação desagradável. Li em Schopenhauer que quem lê a cada segundo livre não pensa. E não cria. Será que estou ocupando demais meu tempo apenas para alimentar o espírito?

Ou porque que ande um misto de trabalhador oprimido, acadêmico replicador sem idéias próprias, fazedor de coisas sacais a serem feitas? Preocupada demais com a contingência.

Será o calor, os ruídos, o excesso de vontades que cercam um corpo tão frágil?

Ou porque os braços que lixam, cortam, limpam, pintam e as pernas que ajudam a buscar todo o necessário para a função estejam por demais cansados do trabalho repetitivo da academia?

Talvez porque haja sobre a minha mesa uma folha de papel; pincéis e tintas; lápis e canetas; tesoura e cola, mas não haja preferência sobre pintar, escrever ou montar. Excesso de energia, ausência de decisão.

Mas certo que falta no coração a falta criadora. Mas nem sequer há ali a presença que inspiradora. Há sim, a expectativa pela expectativa. Essa não parece gerar nada de novo.

Procrastino: o olhar vai de dentro para o céu. Há partículas em suspensão

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11.26.2010

Prosa germânica marginal... ou mais uma do poeta mobral

Ando sem saber o que escrever. Por outro lado, recebi isso aqui. Achei bom, publico com a devida autorização.

A colega

(Adriano C.)

Já havia reparado como era linda. Ela tinha uma figura longilínea e elegante. Hoje, salto alto vermelho, calças pretas vigorosamente preenchidas pelas bem torneadas pernas e uma camiseta larga, desleixadamente fashion, que deixava (propositalmente? e por instantes) o desenho do ombro à mostra. Pele clara, porém bronzeada. Paulistana bem nascida, lógico. Sol de Ubatuba aos fins de semana? Provavelmente. Olhos rasgados e tristes, cabelos longos. Muito longos. Pontas repicadas. Penteado despenteado. Gata. Gata daquele tipo que o pobre coitado move montanhas por um mero sorriso. Que, se ela der, será de canto de boca. Otário. Mas tudo bem, já seria o suficiente para admirar a brancura perfeita de seus dentes. Assustadoramente distante. Acima. Não rola, pensei. Com que cara lhe dirigir a palavra? Lhe dar um “oi, tudo bem?” Não. Impossível. O que lhe sobra de beleza também lhe deve vazar pelos poros um egocentrismo avassalador. Ela deve pisar sem dó no verme admirador. Não dá a mínima para os rastejantes seres que por ela matariam a própria mãe por um sim. Tá, exagerei, mas é por aí. Como diz meu amigo João, essa não tem nome. Vaca.

Mito criado em 1 semestre do curso de Estética II na Filosofia da USP. Introdução ao pensamento de Herder. Introdução à ideia de beleza. Mito confirmado nos 15 segundos em que ela foi de sua cadeira à mesa central, para apresentar o último seminário do texto “Shakespeare”. Três no grupo, ela, claro, senta-se ao meio, imponente. Mais alta até. Sinto o perfume no ar.

Começa a apresentação. Desmistificadora.

Ela está nervosa. Insegura. Gaguejou? Sim! Nossa, estranho... Os olhares da classe a tiraram do salto. Que salto? Ela está de sandálias. Mãos trêmulas, unhas roídas. Os longos cabelos atrapalham, caem sobre o texto, mal escrito. Ela lê rápido, confusa. Herder sumiu em seu embaraço. Todos agora se incomodam com sua figura cambaleante. Ri nervosa. Quer fugir, odeia ser o centro das atenções. Burro. Igualzinho a você.

Fim da apresentação. Ela evita as questões. Os parceiros de grupo garantem. Ela precisa sair dali. E sai...

Não!

Antes vai responder à minha pergunta. Respiração ofegante. Suor frio. Coração acelerado. Juro que posso vê-lo batendo sob a camiseta. Foda-se. Tomo coragem.

Espera!

Oi, tudo bem?

Tudo.

Sorriso. Alívio.

E dentes amarelados.

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11.17.2010

Melhores momentos de uma curiosa conversa

- Você vai no Planeta Terra?
- Eu estou nele. Acho.

- Aquele tipo de lésbica...
- Sapatão mesmo, fancha, caminhoneira?
- É, que usa calça cargo cheia de bolsos e colete.
- Cabelo curto, corpo troncudo e buço?
- Porra, isso tá ficando bizarro.
- Tá com medinho?
- Porra logico. Uma dessas vc so mata com bala de prata, sei la.


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11.14.2010

Domingo

Abro um livro sem muita concentração e sinto fome. Está frio na rua em pleno verão carioca e os acordes do carro de som provocam repulsa. Recebo um correio eletrônico de um antigo amor e ouço acordes e frases em italiano com batida moderna. Esse dia é sempre tédio e fogo. Penso em quem está longe. Penso em quem está perto. Fecho o livro, visto uma roupa. Vou primeiro almoçar para depois me jogar no domingo.


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11.10.2010

Ao cantarolar

Músicas são uma forma cliché de mencionar estados de espírito, mas que forma melhor de dizer que "they'll take your soul if you let them, so don't you let them"?

Nada do que se possa sentir é novidade, é tudo uma grande repetição.

Então eu faço o que eu posso.


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11.03.2010

Das primeiras vezes

Parei no meio da rua e olhei para o céu de Copacabana.

Vi o alto dos prédios de uma maneira que não vejo nunca. Vi que alguns moradores reformam suas coberturas, lindas peças em edifícios feios. Vi algumas toalhas secando ao vento e pensei que ali no alto mal se vêem as feiúras. Senti o vento passar por aquele corredor de concreto que as fachadas encerram e que nunca percebo quando estou em meu curso normal. Vi os urubus dando volta em círculos e lembrei que, ainda que sejam urubus, existe vida além da nossa.

Num determinado momento pensei na ironia que seria se, de tanto olhar pra cima, tropeçasse ou perdesse um olhar que valesse a pena. Hesitei, mas naquele breve momento nada me privaria do prazer de sentir meus pés traçarem as mesmas retas de sempre, mas os olhos descobrirem uma geografia inteiramente nova.


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11.01.2010

Sobre a angústia

Angústia é prestar atenção à voz da consciência e perceber que ela está em silêncio.


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10.31.2010

Sonzinho bom

Vou
ficar mais um pouquinho
para ver se alguma coisa acontece
nessa tarde de domingo.


(TR)

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10.25.2010

Nua em público

Entro no vagão do metrô, sento e abro meu livro. O passageiro ao meu lado pousa furtivamente o olhar em minhas páginas. Me sinto nua.


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10.23.2010

Sol, sal e caipicacau.

Ao som de manga é doce, biribiri, limão não.


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10.19.2010

Sobre mulheres e minúcias

Não dá outra: muita mulher junta e sempre rola a frasezinha demarcadora de territórios. "ele tá / tava me dando mole". Pronto, assim a mulher marcou pra sempre o cara, fez uma tatuagem com seu nominho na virilha dele e agora mais amiga nenhuma pode se aproximar.

Mulher é bicho esperto, sórdido e pequeno.

Vamo crescê, vamo?!

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10.13.2010

Sobre o medo

- E por que é que a gente tem que ter medo de vez em quando?
- Pra gente aprender que o medo é nosso melhor conselheiro.

Tom Zé.


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10.10.2010

De sonhos e de sono

Pois bem, doutor...

Penso que morcegos não sejam animais propriamente fofos, mas compreenda que tudo o que é desenhado pode ser exagerado num sentido positivo. Assim meninas se dividem em porquinho-lovers, raposinha-lovers, sapinho-lovers, que foi o meu caso, e por aí vai. Acho mesmo difícil qualquer mulher que regule com a minha idade não ter tido um estilo de bicho ou personagem predileto, como o diabo da Hello Kitty e afins. Isso tudo é pra dizer que eu não sou uma morceguinho-lover, mas tenho muita saudade de uns morceguinhos que voavam num céu cinza de um pijama que teve que ser deixado para trás em certa etapa da minha vida (terei eu saudade dos morcegos ou da etapa?).

Isso tudo, mais uma vez, para falar de sonhos. Uma noite fui à Califórnia e visitei o Salk Institute. Eu queria ir ver aquele plano cortado por uma fonte, e tentava convencer minha companhia de que seria um momento incrível, um daqueles momentos quase religiosos que temos diante de algumas obras de arte. Não que ela não se dispusesse a ir comigo, mas eu olhava para a frente e para o alto e tudo o que via eram as linhas horizontais e verticais tingidas de concreto, convergindo para um céu azul e libertador.

E veja bem, doutor, eu penso cada vez mais que preciso ir à Califórnia, mas me perturba deveras o fato de eu não conseguir parar de sonhar com o pijama de morcegos (estarei eu realmente me referindo ao pijama de morcegos ou a quem o possui neste momento?).

E quando noto que confundo a ação, pois não estou certa de que sonho com a Califórnia e penso no pijama ou se sonho com o pijama (ou com ele) e penso em visitar a Califórnia, percebo que talvez o senhor esteja certo e sonhos e realidade desperta se confundam e tudo isso forme aquilo de que sou composta.

Porque nós somos a massa e os espaços entre a massa, certo?





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